Estilhaços (Foco na Libertação Dolorosa)

hoje eu pensei isso, no que amo e não mexo, não releio e deixo na estante, empoeirando com o meu próprio tempo
Depois ao parar e ler velhos blogs, quem escreve blog? se não alguém que já escreveu diários... 
Pois era fácil pensar o Dimitri, mas não queria pensar o Netuno, pois o Dimitri viveu pouco, mas o Netuno foi um beta que passou de dois anos comigo, mas em um aquário redondo antes, depois assim...
Pré a tudo isso, tinhas os dourados de infância em que eu pintei a água com rosa, de kisuco, viveram, mas minha mãe com dó foi limpar a água e o peixe morreu... 
Depois tive outros dourados, não escolho ter peixes, mas as vezes tenho, mas me incomodo, já conseguir salvar algumas vezes, mas se eu fosse estudar veterinária seria para salvar peixes, bichos pequenos, etc
A morte humana eu tento não pensar... 

O Que Não Se Releu (E o Sangue no Suco Rosa)

Existem livros que são como os peixes dourados da infância: a gente tenta colorir o mundo deles com o que tem à mão, nem que seja com o rosa artificial de um refresco, apenas para descobrir que o excesso de cuidado, ou a falta dele, traz o fim. Lembro-me da água tingida, da sobrevivência improvável e da limpeza da minha mãe que, por dó, acabou com o fôlego do que eu tentava preservar.

Dostoiévski hoje é assim na minha estante. Está lá, empoeirando com o meu próprio tempo. Não mexo, não releio. Há um medo sagrado de tocar na ferida de Irmãos Karamazov ou Crime e Castigo aos 50 anos. Algumas verdades são tão pesadas que a gente prefere deixá-las na prateleira, como um monumento ao que já fomos e ao que já suportamos ler.

Quem escreve blog, afinal, se não o sobrevivente dos próprios diários? É o impulso de tornar público o que antes era o silêncio de um aquário redondo.

Pensei em Dimitri, o laranja, que viveu o tempo de um suspiro russo. Mas evitei pensar em Netuno, o Beta Vermelho que insistiu na vida por dois anos, passando do vidro curvo para a casa de paredes retas. Netuno foi a persistência; Dimitri foi a tragédia curta (morre no arranhão da gata Zumbi, que por sua vez ainda vive, por mais de 20 anos).

Eu não escolho ter peixes, mas eles chegam. E com eles, a angústia de salvar o pequeno, o ínfimo, o bicho que ninguém olha. Se eu tivesse cursado veterinária, não seria para os grandes cavalos, mas para os seres que cabem na palma da mão e que morrem sem fazer barulho. Porque a morte humana... essa eu tento não pensar. Prefiro focar na escala do que posso, talvez, manter vivo em uma página de blog.

A "Máquina de Esquecimento" serve para isso: para deixar a poeira cair sobre os gigantes russos, enquanto tentamos manter a água limpa para o próximo peixe que o destino decidir nos entregar.


 

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