O Que Não Se Releu (E o Sangue no Suco Rosa)
Existem livros que são como os peixes dourados da infância: a gente tenta colorir o mundo deles com o que tem à mão, nem que seja com o rosa artificial de um refresco, apenas para descobrir que o excesso de cuidado, ou a falta dele, traz o fim. Lembro-me da água tingida, da sobrevivência improvável e da limpeza da minha mãe que, por dó, acabou com o fôlego do que eu tentava preservar.
Dostoiévski hoje é assim na minha estante. Está lá, empoeirando com o meu próprio tempo. Não mexo, não releio. Há um medo sagrado de tocar na ferida de Irmãos Karamazov ou Crime e Castigo aos 50 anos. Algumas verdades são tão pesadas que a gente prefere deixá-las na prateleira, como um monumento ao que já fomos e ao que já suportamos ler.
Quem escreve blog, afinal, se não o sobrevivente dos próprios diários? É o impulso de tornar público o que antes era o silêncio de um aquário redondo.
Pensei em Dimitri, o laranja, que viveu o tempo de um suspiro russo. Mas evitei pensar em Netuno, o Beta Vermelho que insistiu na vida por dois anos, passando do vidro curvo para a casa de paredes retas. Netuno foi a persistência; Dimitri foi a tragédia curta (morre no arranhão da gata Zumbi, que por sua vez ainda vive, por mais de 20 anos).
Eu não escolho ter peixes, mas eles chegam. E com eles, a angústia de salvar o pequeno, o ínfimo, o bicho que ninguém olha. Se eu tivesse cursado veterinária, não seria para os grandes cavalos, mas para os seres que cabem na palma da mão e que morrem sem fazer barulho. Porque a morte humana... essa eu tento não pensar. Prefiro focar na escala do que posso, talvez, manter vivo em uma página de blog.
A "Máquina de Esquecimento" serve para isso: para deixar a poeira cair sobre os gigantes russos, enquanto tentamos manter a água limpa para o próximo peixe que o destino decidir nos entregar.
.png)
Comentários
Postar um comentário